Teatro de Bonecos e os espaços formais e não formais da educação: cidadania cultural nos experimentos em arte-educação

por Cleisemery  Campos da Costa* 
 
 
                 “Animar é produzir ânima, simular vida”, na citação de  Balardim (2004), ao discutir a capacidade humana de dialogar com a própria existência através da representação teatral. Nesta linha de vida-manipulada, constata-se que o Teatro de Animação trata-se do Teatro de Bonecos, considerando todo objeto que convive com o homem e que sem a intervenção deste, não gera nenhum tipo de energia ou expressão. Assim, a animação acontece quando o ator-manipulador se relaciona com esse objeto de tal forma a atribuir-lhe vida. “o Boneco/objeto animado não é senão energia refletida do ator-manipulador” (AMARAL). O objeto projeta para o exterior do corpo do manipulador a vontade, o pensamento, os sentimentos e lógicas que este gostaria de compartilhar por si mesmo.
             Nas sociedades primitivas os homens projetavam sentimentos, medos e idéias, em objetos, máscaras ou imagens, que passavam a ter poderes mágicos, como se fossem elos entre eles e seus deuses, entre uma realidade física e um mundo sobrenatural O teatro de bonecos que hoje conhecemos no Ocidente, sofreu forte influencia da Europa e Oriente, de cunho religioso e sobrenatural, do qual se originou, mantendo até hoje,  ligação com o sobrenatural e com o melhor da tradição cultural, como o Japão, palco das mais tradicionais artes milenares do teatro de bonecos, o Bunraku.
           No Egito, antes do palco, a cena acontecia no altar, onde imagens articuladas, contracenavam com os sacerdotes. E esta herança foi recebida pela Grécia Antiga, com as atalanas, considerada o berço do teatro de bonecos, com apresentações de conotação religiosa e cultural. O Império Romano assimilou dos gregos esta faceta da cultura cênica. A Europa registra a origem dos bonecos clássicos, recheados de conteúdo cotidiano, linguagem forte e apta para todo público, reflexo das culturas européias. Na Idade Média, os bonecos eram apresentados em feiras populares, com o fim de doutrinar nos princípios católicos. Mais adiante, focado ao imaginário infantil e popular, se amplia pelos continentes. Destacando algumas das principais referencias ao redor do mundo, o boneco mais conhecido na Itália foi o Maceus, que antecedeu o Polichinelo. Na Alemanha destacou-se o Kasper, assim como o Petruska na Rússia, o Wayanag em Java, o Cristovam na Espanha, o Punch na Inglaterra, Guinol na França. No Brasil Colonial, teve forte destaque em terras nordestinas, especialmente em Pernambuco, o cômico e satírico Mamulengo, permanecendo até hoje, como o boneco “representante” do pais, pelo mundo. Estes bonecos marcam a tradição bonequeira de vários países, mantendo entre eles o elo da irreverência, a espontaneidade, a não-submissão as regras e a comicidade.
          No Brasil, a prática titiriteira se mantém nos dias atuais  nos folguedos populares e tradicionais, nas montagens e produções artísticas profissionais, para variado público, e ainda, presença freqüente nos programas de televisão, com função de entretenimento, lazer e ainda, educativos. Montagens com espetáculos de grupos organizados, principalmente no Sudeste e Sul do Brasil, agregados a ABTB – Associação Brasileira de Teatro de Bonecos, fazem registros do movimento bonequeiro brasileiro. Em meados do século XX, o teatro de bonecos se consolidou fortemente em nosso país, como expressão  nas atividades educacionais, ou ainda, pelos “ titiriteiros livres”, os populares mamulengueiros do nordeste. Reunindo várias linguagens artísticas ( teatro, dança, musica, artes plásticas, literatura), o TB permanece como genuína preciosidade  da cultura popular,  fazendo  da arte titiriteira, uma das expressões mais atraentes de nossa cultura.
            Quando o professor pensa em bonecos, geralmente limita seu pensamento no “teatrinho” (nomenclatura detestável para uma arte milenar que merece maior respeito), ou no clássico “teatro de fantoches”, denegrindo-o a uma mera distração ou passa tempo, restrita a uma das classificações do teatro de bonecos, como é visto pela comunidade escolar na maioria das vezes, desprezando a ampla gama de possibilidades e recursos que o teatro de formas animadas disponibiliza para a educação de todas as idades. Desenvolvendo aspectos educacionais, principalmente aqueles relacionados à comunicação, a expressão sensoriol-motora, a leitura e a literatura, o TB contribui na formação do educando no tocante a  percepção visual, auditiva e tátil; a percepção da seqüência de fatos (noção espaço-temporal); coordenação de movimentos; expressão gestual, oral e plástica; criatividade; imaginação ; memória; socialização e o vocabulário. É uma atração especial, unindo o lúdico, a arte, à aprendizagem.
            Através de atividades em sala de aula com o teatro de bonecos, aspectos do desenvolvimento do alun@, que não são observados durante os trabalhos escolares tradicionais, podem ser revelados. Há uma comunicação extra, entre bonecos & alun@s que é estabelecida, onde as atividades educativas e recreativas, podem ser trabalhadas, de acordo com a capacidade dos alun@s.   O TB demonstra ter um alto valor pedagógico, ao possibilitar desenvolver aprendizagens de atitudes transformadoras, ser altamente participativo e questionador, proporcionar recreação e servir como espaço para a expressão de emoções, impulsos, fobias e conflitos, através das ações impressas espontaneamente nos bonecos e/ou objetos, ao fazer-los falar, cantar ou brigar.
                                    “ Jogos,  dramatização e teatro, ajudam o aluno  a construir a sua identidade, poi, ela poderá desempenhar diversos papéis sociais (mãe/filha, pai/filho, professor, médico, policial, rei, escravo, senhor de engenho, delegado, amigos,  etc.) e experimentar diferentes sensações e emoções. O boneco deixa de ser um objeto e torna-se “alguém”, cria vida, tem um papel e uma identidade, os quais  o aluno e professor, podem aprender  através do objeto-boneco (AMARAL, 2008)”
                                                       
          Bonecos na sala de aula, permitem melhor conhecimento do alun@, sendo possível ajuda-lo no processo de socialização, fazendo-o sentir-se à vontade, sem inibições, propiciando um ambiente de conforto e liberdade onde possa expressar suas idéias e opiniões sem constrangimentos, ao mesmo tempo que  brinca.Entre os principais objetivos do teatro de bonecos na educação, Ladeiras (1998) enfatiza os bons resultados da utilização deste instrumento como atividade lúdica na sala de aula, “ entendendo que para o professor, a atividade é uma técnica educativa; para o alun@, é  um jogo ,  que  educa e ajuda no convívio social”. Através do esforço da compreensão e do conflito da participação nas atividades lúdicas,  o alun@ cresce, cruza metas e atinge objetivos, aprende brincando
                   Citando a escrita poética de Graciliamos Ramos, “a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”,  chego ao recorte do meu trabalho, como educadora/ arte educadora, potencializando transformar a palavra em vida, como uma tarefa  constante, usando para isto, o teatro de bonecos. Com a arte, esta condição  se amplia, dando as palavras poder ainda maior, buscando novos tipos  de transformação da própria vida. A figura do boneco, é um canal especial para esta exploração. Esta intervenção humana através dos bonecos, complementando as palavras, provocando “explosões” que a dimensionam, tem sido a base para minha atuação como arte educadora nos recentes vinte anos, trabalhando o TB como um instrumento de investimento/experimento na educação. Tal intervenção e atuação, se espelha, se molda, nos estudos e leituras de Gramsci, gestando e amadurecendo idéias e comportamento  na assimilação do papel da cultura na educação, no sentido de promover e estimular mudanças, ampliando o “tamanho” da palavra, como sugere Graciliano.  Gramsci entendeu que a educação torna-se dimensão estratégica na transformação social, onde usar a palavra, como “arma”  da arte,da cultura, são  pontos fundamentais, a favor da educação: “ As palavras não podem ser  canhões  que explodem em silêncio”. Tratando de cultura & educação,  operando para contrapor aquilo que “ é “, ao que “dever ser”, buscando e investindo a partir daí, propostas de mudanças, o pensamento Gramsciano  sugere  trabalhar com o “pessimismo da inteligência, e o  otimismo da vontade”, onde a arte é instrumento-arma das mais fundamentais.
                     Gramsci enxergou que a educação era/é uma dimensão estratégica para transformação da sociedade, apresentando consistentes propostas para organizar a cultura num mundo de desigualdades. Por que a educação, a escola assumiram para ele, importância tão decisiva, e neste contexto,confere a cultura tamanho espaço? Segundo Gramsci, o trabalho para convencer as classes mais pobres a aceitar o status quo, não se restringe ao mundo das idéias. Percebendo essa “trama”, Gramsci descobre a importância de um movimento intelectual e cultural, para difundir novas concepções de mundo, que elevem a consciência cidadã das massas populares e produzam novos comportamentos, intelectual e cultural. É no âmbito da reflexão do Estado ampliado que Gramsci questiona as liberdades civis e políticas do Estado democrático, indicando como um dos caminhos mais importantes para se trilhar este Estado ampliado, a cultura e a educação, ou ainda,“ uma educação cultural”. De nada valiam os direitos conquistados com a ampliação da democracia, como o direito político do cidadão de escolher seus dirigentes e poder ser dirigente, se as massas tinham dificuldades para se organizar politicamente, para se expressar com coerência e de forma unitária, e ainda lhes faltavam elementos conceituais para criticar seus governantes.            
                    Esse questionamento mostra sua preocupação em identificar meios para elevar cultural e politicamente as massas. Trata-se de uma perspectiva que vai muito além da formação para a cidadania. Gramsci pensa um programa educacional-cultural, procurando identificar métodos e práticas culturais que propiciem aos trabalhadores sair da condição de subalternidade. Defende a organização de um “centro unitário de cultura”, cujo objetivo é a “elaboração unitária de uma consciência coletiva”, envolvendo a discussão das instituições que atuam na formação de intelectuais, como a imprensa e, principalmente, a escola.
                  Nesta linha Gramsciana, com as somas do conceito de cidadania cultural apresentados pela filósofa Marilena Chauí, sob o prisma democrático do direito à cultura, através da apropriação dos meios culturais existentes, pautados na invenção de novos significados culturais, onde tod@s são sujeitos sociais, culturais e históricos, através do trabalho da memória social coletiva, a atuação como professora e atriz bonequeira na companhia Trio de Três ( organizado na década de oitenta, no século XX),  trilha na prática deste casamento possível, da Cultura & Educação. Os temas das aulas-espetáculos e/ou espetáculos, fogem da linha do entretenimento, puro e simplesmente: as montagens e adaptações pautam linha arte-educadora, com assuntos da prática cotidiana da sala de aula, da grade escolar e conceitos da prática da cidadania, associados aos espetáculos. A intervenção do boneco na prática pedagógica, sempre exigiu a busca do equilíbrio entre o esforço e a disciplina, com o prazer e a satisfação. Tentar conduzir sutilmente o alun@ para a aquisição de conhecimentos mais abstratos, misturando  tarefas escolares com  dose de brincadeira, facilita no mergulho da arte do aprendizado e da vida, e ainda, oportuniza a reflexão e o debate  que permeiam a história, ao longo dos séculos, nas  lutas estabelecida entre poderosos e dominados, entre reis e servos, dentro das salas de aulas,  explorando também,  outros espaços do aprender.
                   O projeto “O Trio conta da História”, especialmente pensado para abordar temas curriculares da disciplina de História com treze temas de aulas-espetáculos, de 1993 – 2003, percorreu escolas, faculdades, instituições diversas nas diferentes esferas do poder público, instituições culturais e educacionais, emissoras de televisão, organizações alternativas e movimentos livres, na apresentação de espetáculos, performances e oficinas nos mais variados encontros (congressos, conferencias, encontros, simpósios, fóruns, seminários, festivais). A  vivência-memória que esta experiência proporciona/proporcionou, supera a tradicional dicotomia entre trabalho científico e prática profissional, onde a proposta das aulas-espetáculos de história, focando  temas do currículo escolar e da vida, são instrumentos reais de aprendizado e investigação, com prazer e satisfação, alimentando de modo harmônico,  com forma e conteúdo, os pilares da prática docente, na  sala de aula, na extensão e na pesquisa. Como Professora da área, sempre me fascinou a busca-tentativa de aproximar o passado, mais perto possível do presente, sendo este mesmo, o maior de todos os tempos no tempo que temos, da História, nas divisões da construção do tempo histórico, de passado, presente e futuro, que concebemos mundialmente. Só é possível projetar ou vislumbrar  um futuro, em função de ações e atitudes presentes. Atitudes presentes  não tem outro local-espaço de acúmulos e construções, a não ser nas constituições e visitas do passado. É do passado que extraímos o que existe de melhor, sendo o tempo presente fugidio e breve, e o futuro, uma incógnita. As aulas – espetáculos de História, objetivam isto: trazer para mais perto do presente, o passado, reinventando e pensando com olhar ampliado, futuros possíveis.
                  Atualmente, o grupo Trio de Três apresenta cinco temas de aulas-espetáculos: Atenas e Esparta: o que ficou de herança; Feudalismo:senhores feudais e servos; Renascimento:um viva a arte e a cultura; Escravidão:um passado de vergonha; e Brasil sem Homofobia,uma questão de cidadania, além de três montagens livres e duas adaptações com autores nacionais e estrangeiros, nos espetáculos: Baião de dois; Reciclagem em Cena; Momento de Natal; Os amores de Dom Perlimplim e Belisa em seu jardim ( Garcia Lorca); e Contos e Escritos ( Clarice Lispector e Marina Colasanti ); com bonecos de vara, marote, luva, marionetes de manipulação direta, bonecos-brinquedos, e sombra. Nestes  anos de atuação, interessante observar o quanto  crianças, adolescentes, jovens e adultos ficam fascinados,  vendo que é possível emprestar  voz e  corpo, para dar vida a um personagem-brinquedo, e através deste brinquedo, aprender.
 “No que tange ao Teatro de bonecos, a própria historia que o acompanha milenarmente o define como uma das mais ricas formas de prática lúdica. Tendo sido utilizado por crianças e adultos, em Oriente e Ocidente, para trabalhar literatura, música, expressão corporal, artes plásticas, valores morais e muito mais.” (AMARAL, 1996).
                             
                 Brincar para aprender, é preciso. O otimismo da arte é necessário, suavizando o “peso” do ritos acadêmicos, da grade curricular e da rigidez dos intelectuais. A formação de profissionais capacitados para o pleno exercício das praticas lúdicas na sala de aula (e fora dela), é hoje um dos maiores desafios dentro da educação. Não pode se pensar em orientação educacional de crianças, adolescentes e  jovens, sem antes haver orientação e preparo do adulto, agente da regência. Sabe-se que os alun@s estão cada vez mais exigentes, ou ainda, desinteressados ao extremo. Parte deste cenário deve-se as circunstancias do mundo atual, com novos e atraentes convites, afastando a escola do educando, e vice-versa. Os alun@s de hoje só conseguem acreditar nos professores que participam, que se envolvem, “que sabem transformar suas aulas em trabalho-jogo, seriedade e prazer ” (ALMEIDA, 2003).
             Ensinar abrindo espaço para debates, aproveitando cada situação como fonte de aprendizagem,através da arte. Será possível ampliar esta consciência, será possível dimensionar a relação educador-educando, crescendo em variadas direções, fortalecendo a árvore do conhecimento? Pontos cruciais à efetivação da arte no cotidiano da sala de aula, são  condições fundamentais para efetivar e socializar este caminho para o conhecimento, bem como a predisposição para levar isso adiante, considerando  a falta de incentivo e/ou apoio por parte das próprias escolas, das gestões escolares, dentro das políticas de educação vigentes, explicitadas  justamente pelo “ tamanho” irrelevante que  a cultura e arte ocupam, nos espaços da educação.
             A palavra chave para o educador é “ousadia”. Ser ousado implica desafios constantes, busca e divisão de conhecimentos. Um sem fim de áreas abstratas e temas polêmicos podem ser abordados através do Teatro de/com Bonecos, como também, outras formas e linguagens artísticas, na educação. Arte e prazer: Um presente atraente, para tempos tão “tensos e desanimados”, na educação formal.
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* Mestre em História Social e Política do Brasil, atriz bonequeira na companhia Trio de Três Teatro de Bonecos, diretora da Comissão Estadual dos Gestores de Cultura do RJ
 
REFERÊNCIAS:
 
ARENDT,Hannah. Entre o passado e o futuro. Coleção debates política. Editora Perspectiva/ SP, 1997.
ALMEIDA,Paulo Nunes de. Educação Lúdica. Técnicas e Jogos pedagógicos.SP. Edições Loyola, 2003.
AMARAL,Ana Maria. Teatro de Animação. Governo Est. SP . FAPESP.Ed. Ateliê. Brasil. 1993.
AMARAL,Ana Maria. Teatro de formas animadas: Máscaras, Bonecos, Objetos. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1996.
BALARDIM, Paulo. Relações de vida e morte no Tetro de Animação. Porto Alegre. Edição do Autor, 2004.
CHAUÍ, Marilena.. Cultura e democracia. O discurso competente e outras falas. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Editora Cortez, 2006.
________________ Cidadania Cultural – 1 Ed. – São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo,2006.
DEL ROIO, M. Os prismas de Gramsci(1919-1926). São Paulo: Xamã; IAP, 2005.
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura.. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1989.
LADEIRAS, Idalina. CALDAS, Sarah. Fantoches & CIA. Arte Educação. Literatura Infantil. LÍNGUA Portuguesa. Pedagogia. Ed Scipione, 1989.
REVERBEL,Olga. Jogos Teatrais na Escola: atividades globais de expressão. São Paulo: Ed. Scipione, 1996.
RIOS, Rosana. Brincando com Teatro de Bonecos.4º Edição.São Paulo: Ed.Global, 2003.
RAMOS, Graciliano. Fonte: www.graciliano.com.br
.
Publicado originalmente em ABTB – Associação Brasileira de Teatro de Bonecos disponível aqui.

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