Dramaturgia da Máscara

Por Tiche Vianna
Barracão Teatro

A máscara é em si a sua dramaturgia,
Não precisa de texto nem contexto pra existir,
Existe porque foi criada
E se foi criada,é porque mereceu existir!

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A máscara é um objeto vinculado ao universo simbólico através da escultura de uma forma que representa um conteúdo específico. Nas sociedades chamadas primitivas, a máscara representava divindades, e como tal, não poderia ter a forma humana. Ao observarmos estas máscaras, é comum verificarmos que o imaginário daquele homem, atribuía a imagem de suas divindades a animais, provavelmente porque sua vida cotidiana o inseria na natureza de modo a fazer desta relação algo, para ele, muito natural.

Estas máscaras divinas, eram usadas por um sacerdote. Nenhum homem comum poderia evocar o “Divino” sem que tivesse sido preparado pra isto. Esta pessoa, ao vestir a máscara, como se perdesse completamente sua identidade cotidiana, era imediatamente identificada, pelos demais membros da sociedade, como a divindade evocada e não mais como o sacerdote.

No teatro quem usa a máscara é o ator, que como o sacerdote das sociedades primitivas, deverá tornar-se outro ser e para isto, deverá escapar de seu cotidiano transformando o seu corpo, sua voz, seu pensamento e suas ações, a partir da relação íntima que estabelecerá com a máscara que porta.

Atrás da Máscara, ninguém se oculta e tudo se revela.

 

A MÁSCARA É UMA LINGUAGEM CÊNICA PORQUE CONSTITUI A SUA PRÓPRIA DRAMATURGIA.

 

A máscara é um objeto de representação e ligação simbólica com o imaginário de um povo, capaz de estabelecer, através da sua utilização, uma relação de “presentificação” ou materialidade de arquétipos e do seu universo mitológico. Consideramos arquetípico, aquilo que apresenta uma essencialidade humana, capaz de atravessar todas as culturas em diversas épocas. Consideramos como universo mitológico, o conjunto de histórias e figuras que atravessaram os tempos apresentando diversos arquétipos através de sua formalização específica.

Ao trazermos a máscara para dentro do teatro, como instrumento de expressão, instituímos um modo específico de criar a cena e consequentemente, um treinamento específico para o ator que pretende utilizar e criar um espetáculo de máscara.

No teatro, a máscara, pode assumir duas funções claras: a de objeto cênico ou a de expressão cênica. Como objeto cênico, uma máscara corresponde a qualquer objeto que possa ser utilizado por um ator para demonstrar uma determinada realidade, por exemplo, uma máscara poderá ocultar a identidade de uma personagem ou decorar o cenário de um baile à fantasia. Como objeto, ela não age, ela será “agida” por alguém. A máscara como expressão cênica, porém, não é objeto. Ela é reconhecida, através de um conjunto de códigos, como um ser vivo passível de sofrer toda sorte de paixões humanas. O espectador, então, não estará interessado em ver a história de quem veste a máscara sobre seu rosto estando, portanto, atrás dela. O espectador estará se relacionando diretamente com a máscara, reconhecendo que ela em si, é o sujeito da realidade apresentada.

Dentro desta especificidade, ou seja, considerando a máscara uma expressão cênica, nos perguntamos então, o que faz um ator para tornar-se máscara, sem esconder-se por trás dela?

Retomemos a idéia de que a máscara é, antes de mais nada, um objeto de couro, papel ou látex, com uma forma definida e fixa, colocado sobre o rosto. Para torná-la viva, é preciso fazê-la “respirar” e para fazermos isto, precisaremos atribuir a esta forma fixa, o movimento. É preciso vê-la em movimento para percebermos que está viva e consequentemente, se relacionando com o mundo ao seu redor.

Não podemos desconsiderar, porém, que no teatro, não é qualquer movimento que será capaz de se expressar, se não for uma ação ou reação. Deste modo, podemos afirmar que são as ações e reações das máscaras observadas no corpo do ator através do movimento, que seremos capazes de compreender quais e quanto as coisas do mundo lhe interessam.

Em particular, as máscaras nos apresentam outro aspecto a ser considerado: não podemos fazer com que o olho do ator que está por trás dela, apareça diante de seu espectador. Para que isto não aconteça, atribuímos o olhar da máscara ao nariz dela e não aos seus olhos. Desta forma, quando uma máscara vê algo, certamente observamos que a cabeça do ator move-se na direção do seu ponto de interesse de modo a alinhar o nariz da máscara com este ponto, ao qual damos o nome de “foco”. Todos os movimentos do corpo do ator deverão partir da máscara. É preciso então focalizar, para que o espectador saiba que a máscara está estabelecendo uma relação com seu ponto de interesse. Se o movimento for apenas dos olhos do ator, a máscara continuará parada, fixada em uma única direção, “morta” ou “pendurada em uma cabeça”, como se estivesse pendurada na parede. Portanto não é possível que os olhos do ator olhem para uma coisa, o nariz da máscara aponte para outra coisa. Olho do ator e nariz da máscara tornam-se uma única coisa.

Outro aspecto que logo se evidencia quando o ator veste uma máscara, é a proporção que assume seu corpo diante dos olhos do espectador. O corpo se engrandece e torna-se tão presente que não é possível aceitarmos movimentos realizados de modo natural, cotidiano ou realista como os movimentos do dia a dia corpo humano. O corpo de uma máscara não tem a dimensão do corpo de um homem ou mulher. Seus movimentos são maiores e mais amplos e o corpo do ator deverá aproveitar cada uma de suas partes, como se compusesse um gesto específico para cada uma delas, na medida que se movimenta.

Para construir fisicamente o corpo da máscara, o ator trabalhará com a idéia de eixo, que é uma composição que reorganiza a relação entre a cabeça, coluna, quadril e pés do ator. Esta construção será inspirada pela forma fixa da máscara e definirá seu corpo. Composto este corpo como um todo: cabeça, tronco e membros, suas relações e movimentos, estarão diretamente ligados a esta forma, que será responsável pelo seu modo de realizar, até mesmo os movimentos mais banais e cotidianos, que não serão convencionais, embora verdadeiros. O mesmo consideramos para a voz, que também deverá assumir uma dimensão corpórea, acompanhando a proporção do corpo da máscara e não do corpo do ator que está por trás dela e que não será visto.

Por fim, ao olhar para uma máscara antes de vesti-la, o ator se dá conta de que aquele rosto em suas mãos é uma cara esculpida com relevos fixos, que lhe sugerem um caráter, um modo de ser fisicamente no espaço, um ritmo e um estado de espírito.

Se o movimento é o instrumento que dá vida à máscara e possibilita que ela mude sua expressão que é fixa, fazendo com que quem a vê saiba o que lhe está acontecendo, é obvio que não podemos deixá-la parada por muito tempo. Mas então, o que faz uma máscara o tempo todo? A máscara age e reage.

A ação é o meio através do qual a máscara desenvolve suas relações. É assim que ela mostra quem é. Uma máscara não discute com outra máscara nem com ninguém sobre as coisas. Isto seria muito banal, corriqueiro e naturalmente humano. Uma máscara faz alguma coisa a respeito das coisas que estão lhe acontecendo. A máscara também não pensa sobre si mesma. Isto seria dotá-la de um caráter psicológico, que ela, por não ser humana, não tem. A máscara mostra o que lhe acontece e o espectador poderá compreender como isto lhe afeta, através das suas reações físicas. Podemos então afirmar sem medo de errar, que uma máscara precisa estar em relação a alguma coisa ou alguma outra máscara para que o espectador possa se inserir no universo imaginário que ela propõe.

Realizar a máscara expressiva, para o ator que a porta, é considerar que o rosto da máscara é seu olho, e o corpo que reage ao que vê é o olhar que esta máscara coloca sobre o mundo que a envolve.

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Publicado orginalmente no site “Primeiro Sinal” disponível aqui.

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